Necronauta

Uaréview
Por Rafael Rodrigues


É possível existir um super-herói totalmente brasileiro e que valha a pena ler? Essa é uma pergunta que muitos entusiastas e autores de quadrinhos aqui no país se fazem há muito tempo. Existiram muitas tentativas ao longo das décadas, algumas promissoras, raras de sucesso e a quase totalidade completamente infrutíferas. Mas talvez Necronauta seja o personagem que venha para mudar esse cenário e responder esta pergunta. Como? Bom, siga lendo que eu darei algumas idéias.


Como muitos de meus colegas Uarevianos – e inclusive alguns leitores – já sabem, eu defendo que no Brasil existiram ao longo dos tempos muitas HQs brasileiras (feitas no Brasil), porém raras foram as HQs nacionais (com identidade própria nacional). Os motivos para isso são vários, e envolvem fatores criativos (a grande maioria dos autores preferem ou não conseguem fazer nada além de copiar técnicas, estética, tom e clichês das HQs de outras culturas, como a americana e japonesa), culturais (o conceito de super-herói como conhecemos é exclusivamente americano, portanto só funciona de forma coerente lá), logísticos (o fato de o Brasil nunca ter tido um mercado real e lucrativo de quadrinhos, com exceção talvez das décadas de 70-80) e nacionalistas (o fato do próprio país parecer não ter uma “identidade própria”), entre outros.

Mas o fato é que, de alguns anos para cá, alguns autores têm se esforçado para criar histórias que tenham ressonância em seu público, sem dar uma de parasita para cima das realizações de outras culturas e tentando dar uma cara mais sincera para suas obras, seja aproveitando-se do contexto histórico (como Chibata! e Ato 5), baseando-se em suas próprias experiências de vida (como na HQ 7 Vidas – que resenharei em breve) ou criando histórias e personagens inéditos. Este último é o caso de Necronauta.

Criado por Danilo Beyruth e publicado originalmente como fanzine, as histórias voltaram a ser publicadas numa edição bem caprichada pela HQM Editora que compila as primeiras histórias do personagem. Para quem não sabe, Necronauta é um ser que vive no limbo, no espaço entre o nosso mundo e o que quer que venha depois dele, após a morte. Necronauta é o salva-vidas das almas, o responsável por guiar as pessoas que passam por aquele território, especialmente quando em mortes violentas ou traumáticas. A premissa é simples e por si só já é interessante, dando margem a muitas possibilidades narrativas. E é isso o que vemos em Necronauta, começando pelo fato de que, apesar de ser o protagonista, ele está longe de ser o foco das histórias, que geralmente giram em torno dos conflitos da pessoa que morreu e que ele tem que ajudar. Por exemplo, na história O soldado assombrado, Necronauta tem de salvar um ex-soldado com trauma de guerra que recria através de suas memórias o mundo de horrores que presenciou e que o marcou por toda a sua vida.

Como eu comentei rapidamente no Podcast Uarévaa, as histórias do Necronauta são simples, não são obras primas que vão salvar o quadrinho nacional, mas possuem qualidades que o destacam de outras iniciativas do gênero e o colocam como um verdadeiro precursor de uma futura e eventual nova onda de heróis brasileiros “de verdade”.

Uma das características bacanas de Necronauta é o fato dele não ser necessariamente um “super-herói” no sentido americano da palavra. Ele não defende a verdade, a justiça e o modo de vida americano brasileiro, mas ainda assim, ele salva vidas. Ou melhor, os pós-vida, ou seja, algo que é mais importante para um ser humano, sua alma. Além disso, apesar de não ficar claro, entende-se que o Necronauta não faz o que faz por ser “escolhido”, ou por ter uma tragédia familiar que o levou a combater o crime, ou coisa do tipo. Ser necronauta é a vida e o ofício do personagem. Ou seja, ele faz aquilo porque aquilo é seu trabalho. É um trabalho foda, mas alguém tem que fazer. Taí uma coisa que qualquer brasileiro consegue se identificar.

Outra coisa que foi comentada no Podcast foi justamente a necessidade atual de autossuficiência das histórias, uma característica que, no Brasil, surgia da necessidade de se contar histórias fechadas sem ganchos, uma vez que num mercado inexistente de quadrinhos nacionais, cada publicação é uma aposta e o que vem depois só o futuro pode saber. No entanto, essa característica de histórias autocontidas (cada história é uma trama fechada, sem ligação aparente com as anteriores ou posteriores) é algo que, creio eu, funciona muito melhor aqui no Brasil do que criar arcos ou histórias seqüenciais intermináveis como fazem certas editoras (cof, cof, DC e Marvel, cof, cof).

Nesta edição da HQM editora ainda temos, nas últimas histórias, o início da construção de uma mitologia para os personagens, com alguns vislumbres mais abrangentes sobre o mundo de Necronauta e outros personagens interessantes (a participação de Nikola Tesla numa delas fez de mim um fã do autor, admito). As únicas coisas que eu não gostei foram a inclusão de um mito da igreja católica como vilão de uma das histórias (que inclusive foi publicada nos EUA numa antologia da Image Comics chamada Popgun, talvez aí esteja o motivo, a necessidade de se colocar um “vilão” para Necronauta enfrentar numa hq para o público americano), pois diminiui um pouco a força da idéia não declarada de que cada um vai para o lugar que acredita, por isso a hq perdeu pontos comigo neste aspecto. Ah, e o uniforme que, apesar de ser muito bacana, não deixa de remeter aos heróis americanos (mas tai algo que dá pra entender, considerando as prováveis inspirações do personagem), o que era desnecessário.

Por falar em visual, a arte de Beyruth é um show à parte. Além de muito bem desenhado, o estilo narrativo da arte remete aos grandes artistas dos anos 80, mas com um dinamismo que dá modernidade e um quê de novidade para a obra.

No saldo geral, Necronauta é uma HQ que vale muito a pena ser lida, principalmente porque mostra algo próximo do que podemos chamar de “Herói brasileiro” numa Hq que, apesar das óbvias referências e inspiração nos quadrinhos americanos, traz histórias simples, inteligentes e com diversos elementos bacanas. O tipo de história empolgante que nos faz querer ler sempre a próxima edição.

P.S.: Se você quer conferir uma história do Necronauta antes de comprar, passe no site da Oi quadrinhos que lá tem uma história do Necronauta inteiramente de graça para ser lida no computador. E quando você for comprar, pode adquirir na Comix, na Banca 2000 ou em outros locais online por R$ 29,90.

Nota: 8,5 (nota maior que eu dei para Homem de Ferro 2)

Rafael Rodrigues não sabe o que o espera após a morte, mas enquanto não vê com seus próprios olhos, prefere continuar lendo as histórias do Necronauta.

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