A Cor que caiu do Espaço

“Embora a província do desconhecido venha diminuindo sem nenhuma interrupção há milhares de anos, uma reserva infinita de mistério ainda paira sobre a maior parte do cosmo sideral.”

H.P. Lovecraft


Tema Macabro

H.P. Lovecraft é mais conhecido por sua contribuição para o realismo fantástico (nada me tira da cabeça a ideia de que ele influenciou de alguma forma Erick Von Daniken e sua teoria dos Deuses Astronautas) e para as histórias de terror cósmicas, mas nem sempre foi assim. De fato, inicialmente, o auto se limitava a obras e temas comuns ao gênero. Histórias como A tumba, O Caso de Charles Dexter Ward, o Depoimento de Randolph Carter e Herbert West: Reanimator se utilizavam dos temas mórbidos mais recorrentes ao gênero na época, mas em Dagon (que foi seu segundo conto publicado) o autor já demonstrava, embora de forma mais tímida, interesses que mais adiante ficariam claros: História, astronomia e arqueologia.

Mas, embora Lovecraft flertasse desde o começo com tais temas, foi com A Cor que caiu do Espaço que ele iniciou sua jornada pelos confins do cosmo a fim de trazer inspiração para seus escritos, o que acabou tornando-o conhecido por este tipo de história.

A trama de A Cor que Caiu do Espaço é simples – e talvez hoje soe até previsível, mas instigante (ainda mais para a época – estamos falando de um momento histórico marcado pelo cientificismo e por novas e inimagináveis descobertas científicas): Existe um terreno nos arredores da cidade de Arkham, que é evitado por todos na cidade. Possui uma atmosfera gótica e perturbadora, cinza e sem vida. Mas conta-se que antigamente o lugar já foi bem diferente, cheio de plantas, cheio de vida, habitado por uma família que era dona do terreno e inclusive sendo um lugar ótimo para se visitar (pelo local e também pelas pessoas). Mas tudo mudou com a queda de um estranho meteorito vindo do espaço.

O conto marca um importante ponto na vida literária de Lovecraft. Em seus ensaios “Horror Sobrenatural na Literatura” e “Notas sobre Ficção Interplanetária”, o autor defende que a verossimilhança lógica e emocional dentro deste tipo de trama é fundamental para garantir o engajamento do leitor a essas histórias. Coisas como reações humanas mais condizentes com a natureza do incidente fantástico (ele alegava que muitos autores banalizavam as reações das pessoas frente à acontecimentos extraordinários e que isso desacreditava as histórias) e a representação de coisas fantásticas, não como sendo coisas dentro de nossa perspectiva, mas como sendo o que o próprio nome diz, ou seja, fantásticas, estão entre as opiniões do autor quanto à direção que ele segue em suas histórias.

A Cor que Caiu do Espaço, por exemplo, surge da intenção de Lovecraft de retratar uma forma alienígena que fosse tão distinta daquilo que conhecemos que o máximo que podemos fazer é uma analogia sobre o que aquilo se parece, mas que, por sua completa falta de identificação com qualquer forma de vida já vista, ela acaba se tornando, de fato, alienígena, num sentido bem mais profundo. Por essa razão que a forma alienígena que vemos não parece nem sólido, nem líquido, e de fato nem gasoso, sendo a analogia mais próxima, apenas uma “cor”. Uma cor que veio do espaço.

A história ainda teve adaptações para o cinema: “Die, Monster, Die” é de 1965 e conta a história de um cientista americano que visita a cidade da família de sua noiva encontra durante a viagem um terreno destruído por uma enorme cratera, que é evitado fortemente pelos habitantes da cidade. O filme tem Boris Karloff no elenco e, bem, toma algumas liberdades no que se refere à história.

De 1987, “The Curse”, trata de um fazendeiro religioso que procura sustentar sua família e manter sua fazenda, a qual está em vias de perder para um rico comprador que quer a maior parte das fazendas do local para ser uma área de lazer, e uma noite de tempestade onde um objeto brilhante não identificado cai em sua propriedade desencadeando uma terrível “maldição” sobre a cidade.



Há ainda uma terceira adaptação, mais recente, de 2010: “Die Farbe” (A Cor), produção alemã e que parece ser a mais fiel e interessante das adaptações.



A Cor que caiu do espaço é sem dúvida um marco importante para os fãs do realismo fantástico, do terror interplanetário e, principalmente, os fãs do autor, pois marca definitivamente o rumo que Lovecraft tomaria no que tange aos seus principais interesses dentro de sua literatura. A versão brasileira foi publicada no formato pocket recentemente pela editora Hedra, que tem feito um ótimo trabalho com as publicações do autor.

Curiosidades:
– H.P. Lovecraft declarou que “A Cor que veio do Espaço” é, de seus escritos, a sua história preferida;
– No conto, o autor se refere à criatura como um tipo de cor que não existia na natureza. Existem de fato as chamadas “cores impossíveis”, que não são percebidas sob condições normais. São cores completamente “inéditas” que são observadas apenas em condições bem específicas.

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