O amigão da vizinhança – Parte 2

No post anterior:
Quando picado por uma aranha radioativa, Peter Parker ganhou grandes poderes. Mas quando seu tio morre por negligência dele, Peter descobre que com grandes poderes, vem grandes responsabilidades. E responsabilidades é o que não vai faltar daqui pra frente!

“Enquanto isso, na banda desenhada…” é uma seção que traçar um paralelo entre o universo real e o mundo dos quadrinhos, analisando como as duas realidades afetam uma à outra, trazendo informação e estimulando a reflexão acerca dessa 8ª arte.


Com Grandes poderes, vem grandes problemas!

Como todo adolescente, Peter Parker teve muitas paixões. A primeira foi Betty Brant, secretária de J. Jonah Jameson, mas logo começou a namorar Gwen Stacy. O núcleo de coadjuvantes das histórias do Homem-Aranha eram outro diferencial nas histórias do personagem. Diferente da maioria dos outros heróis (principalmente os da DC), em que os coadjuvantes representavam papéis relativamente pequenos e não tinham suas personalidades muito desenvolvidas, o núcleo de Peter era constituído principalmente de seus colegas, cada um com uma personalidade interessante (ainda que meio clichês e bem menos desenvolvida do que em épocas mais recentes), e que dava mais realismo e verossimilhança para as histórias. O valentão Flash Thompson, o amigo Harry Osborn, os amores Gwen stacy e Mary Jane-Watson eram alguns dos coadjuvantes importantes de Peter.

Mas, se de um lado Peter tinha grandes amigos, de outro, havia também grandes inimigos. Durante toda a sua história, o Homem-Aranha contou com uma galeria de vilões tão rica e interessante que rivaliza com Batman. Entre os mais importantes em seu período inicial estão Abutre, Dr. Octopus, Lagarto, Escorpião, Electro, Shocker, e é claro, o Duende Verde. O mais interessante era o caráter pessoal dos vilões do Aranha: não raro, Peter era obrigado a enfrentar grandes e complicados dilemas morais e até éticos relacionados aos seus algozes. Dentre os casos mais clássicos, estão Lagarto, que era professor de Peter na faculdade e um acidente o transformou num monstro; e Duende Verde, que era pai do melhor amigo de Peter (Harry), mas tinha problemas de dupla personalidade.

No mundo real, Homem-Aranha fazia muito sucesso, e por isso passou a aparecer em diversas revistas: Foi criado também Marvel Team-Up, onde o cabeça de teia (como alguns chamam aqui) encontrava todo mês um personagem da Marvel. Homem-Aranha estava consolidado, não só como personagem, mas como um dos responsáveis pela revolução nos Comics. Mal sabiam os leitores que a revolução que o personagem iniciou iria ainda muito mais longe.

Diferente dos outros “casais” dos quadrinhos, que para manterem-se atemporais nunca mudavam, Peter e Gwen passaram por muitas coisas juntos, e evoluíram naturalmente como qualquer casal do mundo real. Gwen, que começara como uma jovem confusa e mimada tornou-se uma mulher madura e que sabia o que queria da vida. Em dado momento, Peter já estava inclusive tentando e descobrir uma forma de se livrar de seus poderes para ter uma vida normal e poder casar com Gwen. Era uma evolução natural na vida real, mas não podia ser assim nos quadrinhos. Para os editores, envelhecer o Aranha significaria perder grande parte do seu apelo junto ao público adolescente; logo, casá-lo e torná-lo um adulto responsável não era uma opção. E foi então que a Marvel tomou uma atitude drástica que marcou para sempre a história dos Comics (e a vida dos leitores do Aranha).

No início dos anos 70, os artistas de quadrinhos estavam decididos a enfrentar o Comics Code Authority, o que trouxe histórias mais sérias, mais próximas da realidade e mais ousadas (como a história que mostra Ricardito – sidekick do Arqueiro Verde – como um viciado em drogas). Em junho de 1973, o impensável aconteceu: capturada pelo Duende Verde, Gwen Stacy é atirada da ponte do Brooklyn pelo vilão e morre por ter seu pescoço quebrado devido à tentativa desesperada do Homem-Aranha de segurá-la usando suas teias. Essa história teve um impacto incomensurável nos quadrinhos e nos leitores, pois nunca um herói do “alto escalão” havia falhado de maneira tão grave. Há quem diga que foi essa história que abriu caminho para uma era mais sombria de heróis, que aconteceria mais adiante. Essa história, para muitos, marca o fim da Era de Prata dos quadrinhos.

Com a morte de Gwen Stacy, outros interesses amorosos surgiriam: A primeira delas, a Gata Negra, não durou muito, em grande parte por conta dos leitores não gostarem do fato dela ser mais interessada no Homem-Aranha do que em Peter Parker. Mary Jane-Watson, apesar de já existir antes, somente após a morte de Gwen passou a fazer parte mais ativamente da vida de Peter. O romance entre Peter e Mary Jane não era tão interessante quanto dele e Gwen, mas estava valendo. Os editores haviam conseguido o que queriam: Manter o personagem jovem, não casado e em seus moldes originais. Mas curiosamente, isso não duraria muito tempo.

Pouco mais de uma década depois, Stan Lee já não cuidava mais das revistas da Marvel, mas ainda trabalhava na empresa em outras áreas; entre elas, cuidava de escrever as tiras de jornal do Homem-Aranha, que estavam realmente em baixa. Por conta disso, em 87, ele decide CASAR o personagem. Até aí tudo bem, seria uma decisão que não refletiria nas revistas, que afinal eram a “cronologia oficial”. Mas acontece que Jim Shooter, Editor-Chefe da Marvel na época, não gostou nem um pouco da idéia de Peter casar primeiro nas tiras, e decidiu contar o evento também nas revistas, mesmo o relacionamento de Peter e Mary Jane não sendo tão “sólido” quanto o de Peter e Gwen àquela altura. Numa decisão bastante ditatorial, Shooter mandou casarem o Homem-Aranha, e assim o fizeram. Os motivos para Peter decidir casar eram o de menos; numa história forçada e rasa, os dois resolvem que foram feitos um para o outro. Se vocês estão se perguntando por que o que antes eles consideravam uma péssima idéia agora era uma idéia válida, só posso dizer que eu também me faço sempre essa mesma pergunta…

Epílogo – Curiosidades:
– As questões editoriais que envolvem a morte de Gwen Stacy até hoje são controversas: Stan Lee sempre pareceu contrariado sobre essa decisão; ao que parece, ele estava viajando quando o editor Roy Thomas e os roteiristas decidiram matar a personagem;
– Apesar de Gwen ter uma grande importância na vida do Aranha, fora dos quadrinhos ela quase nunca é citada; seu papel geralmente é dado à Mary Jane. O motivo talvez seja evitar confusões ou simplificar a vida do personagem em outras mídias
– Originalmente, Gwen Stacy deveria ser jogada da ponte George Washington, mas o desenhista desenhou erroneamente a ponte do Brooklyn
– Jim Shooter era conhecido por seus mandos e desmandos na Marvel. Dizem as más línguas que ele era um editor rígido, e que impunha idéias sobre os rumos do universo marvel.
– Em anos mais recentes, a morte de Gwen foi ligeiramente mudada para diminuir a culpa do herói sobre o incidente; agora ela já estava morta quando ele a salvou.
– Homem-Aranha, filme de 2002, reproduz de maneira bastante fiel os eventos que culminaram na morte de Gwen Stacy, mas no lugar dela, está Mary Jane, que obviamente, tem mais sorte que o antigo amor de Peter. Além disso, a personagem é introduzida no 3º filme do personagem, apesar de não ter a mesma importância par ao herói que teve nos quadrinhos
– Nos anos 70, o personagem teve uma série de TV Live Action (com atores reais), que durou 2 temporadas entre 78 e 79.

A Seguir: O período Negro! Poderes mágicos! Não perca nem mais um dia da difícil vida de Peter Parker, no último capítulo de o Amigão da Vizinhança!

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