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O Antagonismo Contemporâneo dos Super-Heróis


Nosso espaço para posts dos leitores está de volta! Dessa vez no De Fora da Panela temos uma análise do nosso leitor Matheus Martins sobre essa mania de super-heróis saírem brigando toda hora. Quer mandar seu texto também? No fim do post tem como fazer!

O Antagonismo Contemporâneo (ou: Por que os Super-Heróis se esporram tanto, e onde os vilões foram parar?)

Na Era de Ouro dos quadrinhos, as histórias seguiam uma fórmula modesta, com papéis bem definidos: o herói é retirado de sua rotina pela ameaça de um vilão à população, ou meramente ao patrimônio em geral. De um ponto de vista literário e teatral, o herói é o protagonista, o personagem principal. O vilão é o antagonista, seu opositor.

Eventualmente, o herói salva o dia, e parte em direção ao horizonte. Fim. Dessa edição, pelo menos. Amanhã será um novo dia, e uma nova aventura, na vida do herói.

Mas para o vilão, o retorno não era garantido. Não havia gancho nítido para um novo arco de histórias. Suas aparições eram ocasionais, quase improvisadas. O vilão, muitas vezes, era apresentado naquela mesma edição, e alguns seriam descartados ou permaneceriam no limbo logo depois disso. Pergunte ao nefasto Homem-Pipa.

Na transição da Era de Prata para a de Bronze, os vilões e seu papel como antagonista ganharam significativo destaque. Alguns começaram a fazer parte permanentemente da biografia de seus opositores, os heróis. São os casos do Homem Aranha e o Duende Verde, ou Batman (e agora, mais do que nunca) o Coringa, e Demolidor e Wilson Fisk.

Mais do que isso, a vilania passou a ser associada com a face horrível (e possível) do ser humano, com crimes mais próximos da realidade, mais controversos, odiosos. Roubar o Banco Central de Gotham? Caçar o Homem Aranha em um safári urbano? Casar com a Tia May?

Por favor.

O Coringa matou Jason Todd, o segundo Robin, espancando-o repetidamente com um pé de cabra em 1988, e também foi responsável por balear Barbara Gordon deixando-a paraplégica, além de sequestrar e torturar seu pai, o Comissário Gordon, no mesmo ato (para dizer o mínimo. Há teorias de que o Coringa teria estuprado ambos os personagens).

O Duende Verde matou Gwen Stacy em 1973 (pior: editores confirmaram à época que o fato causador da morte de Gwen, na verdade, foi a manobra mal pensada do Homem Aranha na tentativa de salvamento).

O Demolidor viu Karen Page, seu interesse romântico, trocar sua identidade secreta por uma dose de heroína. Com isso, sua vida foi arruinada, metodicamente, por seu arquirrival Wilson Fisk, o Rei do Crime, em 1986. Perdeu o emprego, seu apartamento, seus amigos. Também viu outra de suas paixões, Elektra, morrer pelas mãos do Mercenário, antes disso.

De meros opostos e alvos dos incríveis talentos e poderes (além de sopapos com efeitos sonoros) dos heróis, os vilões passaram a personificar vários dos nossos medos cotidianos. A morte e a violência, muitas vezes inesperadas e inexplicáveis. O sentimento de impotência. A culpa. Uma forma poderosa de antagonismo.

No entanto, é possível notar um novo status quo se consolidando, uma espécie de movimento criativo paralelo à fórmula original das histórias de super-herói tradicional da Marvel e DC. O raciocínio é mais ou menos o seguinte:

O Batman enfrentar o Coringa, ou uma aliança entre o Mr. Freeze e a Hera-Venenosa, é só mais um dia de trabalho. Nada que vá fazer seus olhos saltarem ao passar pela banca de jornal. Mas que tal o Batman enfrentar o Superman, hein? Será que ele dá conta de vencer o Homem de Aço? Mas por que eles estão brigando? Parece que dessa vez é pra valer. Qual será o motivo do conflito?

Melhor: o Batman descobre que a Liga da Justiça apagou sua memória para evitar o confronto sobre a forma que manusearam os atos do Dr. Luz, que violou a mulher do Homem Elástico: uma lavagem cerebral instantânea.

E tem mais: por causa disso, Batman começa a vigiar e catalogar as fraquezas dos membros da Liga através de um super satélite com inteligência artificial! Como a Liga vai reagir ao descobrir isso?
E essa aqui: um grupo de heróis formado pelos membros mais influentes, inteligentes e poderosos de cada núcleo decidir enviar o Hulk para o espaço sem consultar ninguém sobre? Será que eles fizeram o certo? O Hulk realmente é perigoso, afinal.

Ou então: O Homem de Ferro e o Capitão América colidem no centro de uma discussão sobre direitos civis, capacitação, legitimidade e responsabilidade legal dos heróis pelos seus atos. E aí, leitor? De que lado você está?

Sei que parece uma constatação do óbvio. Aliás, embates entre heróis nunca foram exatamente uma novidade ou um tabu. Muitas vezes, é a forma que eles escolhiam se apresentar um para o outro: brigando. Isso também se traduz para os cinemas e séries.

Mas o que antes não poderia ser considerado mais grave que “5 minutos de briga sem perder a amizade”, hoje é praticamente o que se chama de fato social na indústria dos quadrinhos. Heróis brigam, frequentemente, por razões sérias. A ponto de um não considerar o outro um herói tão bom quanto ele, talvez nem mesmo um herói digno (seguidos pelos leitores, que optarem por uma das linhas de argumentação conflitantes).

Na Marvel, as histórias classificadas como mega-sagas mais bem sucedidas comercialmente tratavam de conflitos entre seus heróis, ignorando seus vilões, como Guerra Civil, Hulk Contra o Mundo, Vingadores vs X-Men e, mais recentemente, Guerra Civil II. Enquanto isso, histórias que optaram pela apresentação de novos vilões como a Essência do Medo, e outras sobre vilões clássicos como Thanos, em Infinito, tiveram menor impacto.

Ainda assim, a DC é a editora que consegue faturar com mais frequência no conflito de seus grandes heróis: a clássica graphic novel O Reino do Amanhã, os frequentes confrontos entre o Batman e o Superman, originalmente em O Cavaleiro das Trevas e, mais recentemente, na linha de frente do fenômeno dos videogames da franquia Injustice, extremamente polida e bem executada em todos os aspectos, traduzida com igual sucesso para os quadrinhos, já em seu quinto ano nos EUA. Isso sem mencionar outras histórias precursoras da ideia de conflitos ideológicos, de método ou perspectiva entre heróis, como a citada Crise de Identidade.


É possível entender o apelo de confrontar seus heróis em um embate físico, do aspecto estritamente publicitário. Porém, mais do que a manobra comercial rentável de “combate de titãs”, talvez estejamos presenciando um fenômeno reflexivo do contexto sociocultural contemporâneo. Um espelho do mundo que vivemos, e do tipo de “vitória” que esperamos na nossa fuga da realidade.

Não é improvável, de forma alguma, que futuros leitores vejam o Superman como o principal antagonista do Batman. Tão ou até mais relevante que o Coringa, atualmente. Afinal, porque o Batman enfrentaria outro super-herói com tanta frequência nos quadrinhos, nos videogames e na sua primeira aparição no novo universo cinematográfico da DC?

Ainda que tópicos como a criminalidade, o medo do inevitável e o desejo de ser capaz de combater referidas ameaças mantenham-se igualmente relevantes, cresce, em paralelo, o desejo de vitória também sobre nossos semelhantes e iguais, ainda que eles também reprovem as mesmas práticas criminosas.
Os EUA acabaram de passar por um ano eleitoral de intenso conflito, que escancarou as diferenças entre eleitores e candidatos, sobre praticamente tudo: condução da economia, saúde pública, política externa, política sobre imigrantes, segurança, porte de armas, direitos civis. Tudo. Nunca foi tão fácil distinguir um republicano de um democrata. Ao redor do mundo, crescem movimentos conservadores, como se pode observar nas tensões eleitorais europeias e o marco da saída da Grã Bretanha da União Europeia.

No Brasil, caso você não tenha notado, todos estão praticamente implorando para avançar com unhas e dentes uns nos outros, sobre qualquer assunto ou debate. Política, manifestações religiosas, políticas de inclusão, educação, direitos civis. Sem contar o já referido crescimento das alas conservadoras, inclusive entre os jovens.

Hoje, tão ou mais importante quanto vencer o mal idealizado, é prevalecer nos conflitos com nossos pares. Nunca foi tão satisfatória, definitiva e desejada a sensação de estar “certo” sobre algo que é objeto de debate.

E por isso, os heróis passam a dividir, quase com a mesma relevância, o papel de antagonista com os vilões. A arte e a ficção refletem nosso desejo de vitória sobre os nossos pares, não importa quem escolhemos para nos representar: o Batman ou o Superman. O Homem de Ferro ou o Capitão América. O Demolidor ou o Justiceiro.

Estou curioso para saber se essa tendência contemporânea já atingiu sua forma final, ou se evoluirá ainda mais, para um ponto onde o enfrentamento dos vilões é totalmente secundário em relação ao convívio e conflito e debate constantes entre heróis. Onde ser antagonista não é sinônimo imediato de vilania. Onde os heróis são seus maiores antagonistas, entre si.

É melhor os vilões se cuidarem. Seu papel está seriamente ameaçado.

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Jornalista, Mestre em Comunicação, autor dos livros O Maior Espetáculo da Terra (Editora Penalux, 2018), MicroAmores (Escaleras, 2020) e Grãos de Areia (Urutau, 2022)

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